Amar a escrita e, ainda assim, não conseguir escrever

25 de agosto de 2026 - Regiane Silva

Uma mesa de madeira vista de cima, coberta por cadernos, livros, papéis, canetas e uma xícara de café, criando uma atmosfera que representa o bloqueio criativo de alguém que ama escrever.

Existe uma coisa um pouco dolorosa em amar profundamente a escrita e, mesmo assim, passar dias, semanas ou até meses sem conseguir escrever. Não é porque as histórias deixaram de ser importantes. Não é porque os personagens desapareceram completamente da nossa cabeça ou porque, de repente, decidimos que preferíamos fazer qualquer outra coisa.

Às vezes, nós ainda amamos a escrita. Talvez até mais do que antes. Mas, por algum motivo, as palavras simplesmente não saem.

É como estar diante de uma porta que, durante muito tempo, esteve sempre aberta. Você entrava sem pensar, sentava-se diante de uma página em branco e, de repente, estava em outro lugar. Havia personagens conversando, cidades inteiras surgindo na imaginação, romances começando, conflitos acontecendo. Você podia passar horas ali sem perceber o tempo passar.

Então, um dia, tenta abrir a mesma porta, e ela está fechada.

Você tenta novamente no dia seguinte. E no outro. Procura ideias, faz anotações, começa histórias que abandona depois de algumas páginas. Observa outras pessoas escrevendo, publicando livros, anunciando novos projetos, e começa a se perguntar: o que aconteceu comigo?

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis do bloqueio criativo. Não é apenas não conseguir escrever. É sentir saudade de uma versão de si mesmo que conseguia. Sentir saudade daquela pessoa que tinha ideias o tempo todo, que acordava pensando nos personagens, que carregava um caderno para todo lugar porque qualquer momento podia se transformar em uma cena. E possivelmente exista até uma culpa nisso tudo, como se estivéssemos traindo algo que sempre amamos.

Mas acredito que amar a escrita e estar com bloqueio criativo podem coexistir. Assim como podemos amar uma pessoa e, ainda assim, precisar ficar sozinhos por um tempo, quem sabe também precisemos nos afastar daquilo que amamos para entender o que está acontecendo dentro de nós.

Às vezes, o problema não é a falta de histórias. Pode ser o cansaço, ou a pressão de precisar escrever algo bom, de precisar terminar, de precisar publicar, de precisar conquistar leitores, de precisar transformar uma paixão em algo produtivo, rentável ou admirável.

E, quando percebemos, aquilo que antes era um lugar de liberdade começa a se transformar em uma obrigação. A página em branco deixa de perguntar: “O que você gostaria de contar?” E passa a perguntar: “Isso vai ser bom o suficiente?”

Talvez seja aí que muitas histórias se silenciam. Porque a criatividade nem sempre gosta de ser pressionada. Ela pode até voltar quando chamada, mas por vezes não aparecerá quando exigirmos que venha. Às vezes, ela precisa de silêncio, de descanso, de experiências novas, de dias comuns; de momentos em que não estamos tentando transformar tudo em uma história.

E isso não significa que deixamos de ser escritores. Não significa que perdemos o talento ou que nunca mais conseguiremos terminar um livro. Significa apenas que estamos atravessando um período diferente.

Acredito que exista uma pressão muito grande sobre quem escreve: a ideia de que um verdadeiro escritor precisa estar sempre escrevendo. Como se a nossa identidade dependesse da quantidade de palavras produzidas.

No entanto, escrever também é observar, viver, sentir. Pensar em uma frase enquanto lavamos a louça e esquecê-la alguns minutos depois. Ler um livro e perceber que aquela história despertou alguma coisa que ainda não sabemos explicar. Ou simplesmente passar um dia inteiro sem pensar em personagens, capítulos ou publicações.

Tudo isso também faz parte do processo.

Talvez, em algum momento, as palavras voltem, não da mesma maneira, porém será um começo. Talvez a pessoa que escrevia compulsivamente não exista mais, e isso pode não ser necessariamente algo ruim. Nós mudamos, crescemos, nos cansamos, descobrimos outras formas de enxergar o mundo. Seria estranho se a nossa escrita permanecesse exatamente igual para sempre.

Quem sabe o bloqueio não seja apenas um muro? Quem sabe seja também uma pausa. Uma espécie de espaço entre quem fomos como escritores e quem ainda estamos aprendendo a ser.

Por enquanto, talvez seja suficiente amar a escrita mesmo quando não conseguimos escrever. Podemos continuar lendo, ou anotar uma frase de vez em quando, sem a obrigação de transformá-la em um capítulo. E, principalmente, tentar não transformar o bloqueio criativo em uma sentença. Porque uma fase não precisa definir toda uma vida.

Pode ser que as histórias ainda estejam por aí, apenas esperando o momento em que você vai parar de exigir que elas apareçam e, finalmente, conseguir escutá-las outra vez. E, quando esse momento chegar, você vai perceber que nunca deixou de amar a escrita. Você só tentava reencontrar o caminho de volta para ela.

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Foto Regiane Silva Regiane Silva

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