Conto “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, de Clarice Lispector

29 de março de 2026 - Regiane Silva

Uma mulher se olhando no espelho, representando a personagem no início do conto. (Imagem gerada por IA)

Há textos que não se leem apenas com os olhos, mas com o corpo inteiro, e é exatamente essa a experiência que Clarice Lispector nos proporciona em Devaneio e embriaguez duma rapariga, publicado no livro Laços de Família, em 1960. Neste conto, mergulhamos em um fluxo de consciência inquieto, íntimo e, por vezes, desconcertante, acompanhando uma protagonista que se perde, ou talvez se encontre, entre pensamentos, sensações e pequenos deslocamentos da realidade.

Nesta resenha, proponho um olhar atento sobre as nuances do conto, explorando suas camadas de significado, sua linguagem tão particular e os sentimentos que emergem dessa narrativa aparentemente simples, mas profundamente densa. Mais do que compreender a história, o convite é sentir o texto, permitindo-se também divagar junto da personagem.

Aviso ao leitor: este post também conta com um complemento especial! Ao final da leitura, você encontrará um vídeo do meu canal no YouTube, onde compartilho um vlog de leitura do conto e aprofundo minhas impressões sobre a obra. Vale a pena conferir para expandir ainda mais essa experiência literária.

Resenha

Poucos textos conseguem capturar com tanta intensidade a experiência de existir quanto Devaneio e embriaguez duma rapariga. Neste conto, a autora abandona qualquer compromisso com uma narrativa linear tradicional para nos conduzir diretamente ao interior da mente de sua protagonista: uma mulher comum, cujo cotidiano banal se transforma em palco para uma profunda e inquietante viagem interior.

A história acompanha uma dona de casa que, ao longo de um dia aparentemente trivial, mergulha em um estado de devaneio que se inicia em uma tarde, dura dias e é aprofundado pelo álcool. A realidade externa, com suas tarefas domésticas e obrigações sociais, torna-se difusa, quase irrelevante, enquanto o fluxo de consciência da personagem ganha força e protagonismo.

Um dos aspectos mais marcantes do conto é justamente essa construção narrativa fragmentada e sensorial. Clarice não está interessada em “contar uma história” no sentido convencional; ela nos convida a experimentar a mente da personagem. O texto oscila entre lucidez e delírio, entre percepção e confusão, criando uma atmosfera que pode causar estranhamento, mas que, ao mesmo tempo, é profundamente humana. Afinal, quem nunca se perdeu em pensamentos a ponto de se afastar momentaneamente da realidade?

A protagonista é construída de maneira sutil, mas extremamente potente. Não há grandes eventos ou reviravoltas em sua trajetória; o que há é um acúmulo de sensações, inquietações e pequenos desconfortos que revelam muito sobre sua condição. Presa a uma rotina doméstica e a um papel social rígido, ela encontra no devaneio uma forma de fuga, ainda que temporária e instável. Essa fuga, no entanto, não é libertadora no sentido clássico; ela é ambígua, desconcertante e, por vezes, angustiante.

Outro ponto relevante é a forma como o conto aborda a identidade feminina. Sem recorrer a discursos explícitos, Clarice expõe as tensões internas de uma mulher que parece viver à margem de si mesma. Há um descompasso entre o que ela é, o que sente e o que se espera dela. O devaneio surge, então, como um espaço em que essas camadas entram em choque, revelando uma subjetividade rica, mas também fragmentada.

A linguagem, como sempre em Clarice Lispector, é um espetáculo à parte. Densa, poética e muitas vezes desconcertante, ela exige um leitor disposto a desacelerar e a se deixar levar pelo ritmo do texto. Não se trata de uma leitura fácil ou rápida, e nem pretende ser. Cada frase parece carregada de significados implícitos, de sensações que escapam à lógica e se aproximam mais do sentir do que do entender.

Em termos de impacto, Devaneio e embriaguez duma rapariga é um conto que pode dividir opiniões. Alguns leitores podem se frustrar com a ausência de uma trama mais definida, enquanto outros encontrarão justamente aí sua maior força. É um texto que não oferece respostas claras, mas que provoca, inquieta e permanece reverberando mesmo após o fim da leitura.

Em suma, este conto é uma excelente porta de entrada no universo clariceano. Ele sintetiza muitas das características que tornaram a obra de Clarice Lispector tão singular: a exploração da interioridade, a linguagem inovadora e a coragem de romper com estruturas narrativas tradicionais. Mais do que uma história, trata-se de uma experiência e, como toda experiência intensa, ela pode ser desconfortável, mas dificilmente será esquecida.

Se você já leu este conto, comente o que achou.

Caso tenha curiosidade e queira lê-lo, compre o livro por meio do meu link: Amazon.

Postagem feita por:

Foto Regiane Silva Regiane Silva

Deixe um comentário para motivar a autora

Cancelar resposta?