Miss Dollar, conto de Machado de Assis

26 de abril de 2026 - Regiane Silva

Mendonça, Margarida e a cadelinha Miss Dollar. Imagem representativa do conto, gerada por IA.

Se tem uma coisa que tenho descoberto ao ler Machado de Assis é como cada texto revela um autor em construção, experimentando estilos, testando ironias e já deixando escapar a genialidade que marcaria sua obra. Miss Dollar é mais um desses encontros curiosos: um conto que, à primeira vista, parece leve e até despretensioso, mas que guarda, nas entrelinhas, muito do olhar crítico e bem-humorado de Machado.

Neste post, vou compartilhar minhas impressões sobre a leitura, comentar alguns aspectos da narrativa e refletir sobre os elementos que já antecipam o estilo machadiano que conhecemos tão bem. E, se você quiser uma experiência mais completa, ao final da postagem deixei um vídeo em que conto toda a história do conto e faço uma resenha comentada, perfeita para quem gosta de ouvir e discutir literatura de forma mais descontraída.

Resumo

O conto Miss Dollar começa de maneira bastante inusitada e já revela o tom irônico do autor. Antes mesmo de apresentar a história, o narrador brinca com o leitor ao sugerir diferentes possibilidades sobre quem seria “Miss Dollar”: uma moça rica, uma inglesa excêntrica ou até mesmo uma herdeira cheia de caprichos. Essa estratégia cria expectativa, que logo é quebrada quando descobrimos que Miss Dollar é, na verdade, uma cadelinha de estimação.

A cadela pertence a uma viúva rica chamada Margarida, uma mulher jovem, bonita e reservada, que vive de maneira tranquila e cercada de cuidados. Certo dia, Miss Dollar desaparece, causando preocupação. É nesse momento que entra Mendonça, um jovem médico, que encontra a cadelinha e decide devolvê-la à dona. Esse gesto simples se torna o ponto de partida para o desenvolvimento da história.

Ao levar Miss Dollar de volta, Mendonça conhece Margarida, e entre os dois surge uma relação marcada por certa timidez e contenção. Ambos carregam experiências que os tornam cautelosos em relação ao amor. Mendonça, apesar de interessado, não se mostra impulsivo; já Margarida, viúva, demonstra receio em se envolver novamente, preservando uma postura discreta e observadora.

Com o passar do tempo, Mendonça passa a frequentar a casa de Margarida com mais regularidade, sempre mantendo um comportamento respeitoso. A convivência entre eles cresce de forma sutil, sem grandes declarações ou gestos apaixonados, o que reforça o tom realista e psicológico do conto. Machado de Assis explora mais os sentimentos contidos e as hesitações do que propriamente ações dramáticas.

Aos poucos, o leitor percebe que há um interesse mútuo, embora nenhum dos dois se entregue completamente a ele. O relacionamento se constrói com base em pequenas interações, olhares e conversas, revelando o cuidado de ambos em evitar frustrações. Esse aspecto mostra uma característica importante da obra machadiana: o foco nas motivações internas e na complexidade emocional dos personagens.

Eventualmente, Mendonça decide se declarar, mas o faz de maneira ponderada, sem excessos românticos. Margarida, por sua vez, reage com cautela, refletindo antes de aceitar o envolvimento. A decisão final não surge de um impulso apaixonado, mas de uma escolha consciente, quase racional, o que dá ao conto um tom diferente das histórias românticas tradicionais da época.

No desfecho, o relacionamento entre Mendonça e Margarida se concretiza, sugerindo um final feliz, mas sem exageros sentimentais. A união dos dois parece baseada mais na compatibilidade e no entendimento mútuo do que em uma paixão arrebatadora. Assim, Machado de Assis encerra o conto, mantendo o equilíbrio entre leveza e análise psicológica.

Resenha

Ao longo da narrativa, o autor utiliza humor, ironia e uma certa quebra de expectativas, especialmente logo no início, para conduzir o leitor. Miss Dollar pode parecer um conto simples, mas já apresenta traços importantes do estilo machadiano, como o diálogo direto com o leitor, a observação crítica dos comportamentos sociais e a atenção aos detalhes da vida emocional.

Além do enredo aparentemente simples, Miss Dollar oferece vários pontos interessantes de análise, especialmente quando lembramos que estamos diante de um Machado de Assis ainda em formação, mas já bastante consciente de seus recursos narrativos.

Um dos aspectos mais marcantes é o diálogo direto com o leitor logo no início do conto. Machado quebra a expectativa tradicional ao brincar com as possíveis identidades de “Miss Dollar”, criando uma espécie de jogo narrativo. Esse recurso não é apenas um detalhe estilístico: ele antecipa uma das marcas mais fortes de sua obra madura, como vemos mais tarde em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aqui, já percebemos o autor manipulando a curiosidade do leitor e deixando claro que a narrativa também é uma construção e não apenas um espelho da realidade.

Outro ponto interessante é a ironia sutil que percorre todo o conto. O fato de Miss Dollar ser uma cadela já funciona como uma pequena crítica bem-humorada às aparências e às expectativas sociais. Machado parece sugerir que nem tudo é o que parece, uma ideia que se tornará central em sua obra posterior. Essa ironia também aparece na forma como o romance entre Margarida e Mendonça se desenvolve: sem exageros, sem grandes declarações, quase como uma negociação emocional.

Também vale destacar o retrato das relações amorosas. Diferentemente do romantismo idealizado, comum na literatura da época, Machado apresenta um relacionamento mais contido e racional. Margarida, como viúva, carrega uma experiência que a torna cautelosa, enquanto Mendonça evita atitudes impulsivas. O amor, aqui, não surge como um arrebatamento, mas como uma construção gradual, baseada em prudência e observação. Isso revela uma visão mais realista e até um pouco cética das emoções humanas.

A figura de Margarida, aliás, merece atenção. Ela foge, em certa medida, do estereótipo feminino da época. Não é uma personagem ingênua ou passiva; ao contrário, é alguém que reflete, pondera e decide com base em sua própria experiência. Sua postura diante do possível romance mostra uma autonomia interessante, especialmente dentro do contexto do século XIX.

Outro elemento relevante é a presença do acaso na narrativa. O encontro entre Mendonça e Margarida acontece por causa do desaparecimento da cadela, um evento banal que desencadeia toda a história. Machado utiliza esse tipo de situação cotidiana para mostrar como a vida pode ser moldada por pequenos acontecimentos; algo que também aparecerá em outros textos do autor.

Por fim, Miss Dollar pode ser visto como um conto de transição. Ainda há traços do romantismo, como o final relativamente feliz, mas já surgem elementos que apontam para o realismo e para a fase mais madura de Machado de Assis. É justamente essa mistura que torna a leitura tão interessante: conseguimos observar o escritor experimentando, ajustando seu estilo e, aos poucos, se aproximando do olhar crítico e sofisticado que o consagraria.

Ler esse conto dentro de uma proposta cronológica torna tudo ainda mais rico, porque permite perceber essas transformações com mais clareza, quase como acompanhar o próprio amadurecimento do autor ao longo do tempo.

E você já leu Miss Dollar?

Se quiser ler o conto, o e-book com as obras completas de Machado está neste link.

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Foto Regiane Silva Regiane Silva

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