
Há leituras que nos acolhem, e há aquelas que nos desarmam completamente. “A menor mulher do mundo”, de Clarice Lispector, pertence, sem dúvida, ao segundo tipo. Desde as primeiras linhas, senti um misto de fascínio e desconforto, como se a autora me conduzisse, com delicadeza e crueldade ao mesmo tempo, a encarar algo que eu talvez preferisse não ver.
Ao terminar o conto, fiquei em silêncio por alguns instantes. Não era apenas a história que me impactava, mas tudo o que ela revela nas entrelinhas: sobre nós, sobre o olhar humano, sobre a forma como lidamos com o que é diferente. É um texto que inquieta, provoca e, sobretudo, expõe. E talvez seja justamente esse incômodo que comprove a profundidade da escrita de Clarice: ela não nos oferece respostas fáceis, mas nos obriga a sentir.
Nesta resenha, compartilho minhas impressões sobre essa leitura que, ao mesmo tempo em que me encantou, também me deixou profundamente desconcertada.
Resumo
Um explorador francês descobre, no coração da África, uma mulher extremamente pequena, com cerca de 45 centímetros, pertencente a uma aldeia desconhecida. Ele a chama de Pequena Flor.
A descoberta vira notícia e é divulgada em jornais ao redor do mundo. A partir daí, o conto mostra como diferentes pessoas reagem ao ver a imagem e a história dessa mulher.
Resenha
A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados.
A reação das pessoas, ao lerem o jornal, foi intragável para mim. A pior parte é saber que isso não é só invenção da cabeça da autora, é puramente a realidade, mesmo estando 66 anos à frente de quando o conto foi lançado.
Nesse domingo, num apartamento, uma mulher, ao olhar no jornal aberto o retrato de Pequena Flor, não quis olhar uma segunda vez “porque me dá aflição”.
— Deve ser o bebê preto menor do mundo — respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. — Imagine só ela servindo a mesa aqui de casa! E de barriguinha grande!
A mulher é tratada como curiosidade, quase como um objeto exótico. Em vez de ser vista como humana, ela é reduzida ao seu tamanho e à sua “estranheza”. Isso revela como a sociedade costuma desumanizar aquilo que foge do padrão.
As pessoas que veem a notícia têm reações variadas: algumas sentem pena, outras acham engraçado, outras demonstram um afeto estranho e até perturbador. Clarice mostra que essas reações dizem mais sobre quem observa do que sobre a própria mulher.
O explorador europeu “descobre” algo que já existia, nomeia e descreve como se fosse dono daquela realidade. Isso critica a ideia de superioridade do homem branco europeu sobre outros povos.
Enquanto muitos a olharam com desprezo, Pequena Flor não retribuiu com a mesma moeda. Diante do homem que se colocava à sua frente, tão diferente de tudo o que lhe era familiar, não houve rejeição, mas uma curiosidade e um amor por sua diferença.
Mas na umidade da floresta (…) amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.
Este se tornou, sem dúvida, um dos meus contos favoritos de Clarice. Há algo nele que permanece, que parece se expandir quanto mais penso sobre ele. Foi uma experiência intensa, dessas que carregamos por algum tempo.
Tenho certeza de que voltarei a esse texto em outro momento, com um olhar mais atento e talvez até mais corajoso, porque percebi que há muitas camadas ainda por explorar. É o tipo de narrativa que se revela aos poucos, que pede releitura, reflexão e, sobretudo, disposição para encarar os incômodos que ela provoca. Clarice tem esse poder raro de nos fazer mergulhar em profundezas que, muitas vezes, nem sabíamos que existiam.
No vídeo abaixo, falo mais sobre minhas impressões.
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