
Há histórias que nos emocionam com mais facilidade, que nos tocam de uma maneira especial. Este conto foi uma delas.
Tenho gostado muito de ler Júlia Lopes de Almeida. Sua escrita é agradável e, ao mesmo tempo, marcante; sua maneira de conduzir e nos apresentar cada história é envolvente e cativante.
Uma mulher escrevendo sobre outras mulheres traz consigo uma sensibilidade e uma empatia que atravessam as palavras. E é exatamente isso que sinto neste conto de Júlia: há compreensão, delicadeza e um olhar atento para as experiências femininas, tornando a leitura ainda mais especial.
O conto se passa em uma casa de maternidade no Rio de Janeiro, dirigida por Madame Levy, uma parteira viúva, prática, interesseira e bastante indiferente ao sofrimento das mulheres que atende.
Logo no início, encontramos duas parturientes: D. Henriqueta, uma mulher rica, e Catharina, uma mulher pobre e viúva.
As duas estão prestes a dar à luz no mesmo quarto, mas a diferença social entre elas é evidenciada desde o começo. Henriqueta tem uma cama melhor, com cortinado, enquanto Catharina é colocada em uma cama estreita, improvisada. A cama, o quarto, o tratamento recebido e até a preocupação da parteira deixam evidente quem possui dinheiro e quem não possui.
Inicialmente, a parteira acredita que Henriqueta é uma mulher casada e tenta tranquilizá-la, dizendo que o marido ficará feliz com o nascimento do bebê. Mas Henriqueta revela algo terrível: ela não é casada. Ela engravidou fora do casamento e está convencida de que cometeu um “crime”. Sua família a mandou para a casa de maternidade para esconder a gravidez e evitar o escândalo. Ela teme morrer e teme ainda mais o julgamento da família e da sociedade.
O problema não é sua gravidez. A maternidade, que deveria ser algo natural, transforma-se em vergonha quando ocorre fora das regras sociais. E Júlia coloca uma mulher rica nessa situação. Isso é interessante porque impede uma leitura simplista de “rico versus pobre”. Henriqueta tem dinheiro, mas está completamente desamparada emocionalmente.
Catharina também tem uma história dolorosa. Ela é viúva e perdeu o marido há apenas três meses, vítima de febre amarela. Também perdeu três filhos. Mesmo assim, ela demonstra muito mais serenidade diante do parto.
Quando Henriqueta diz que tem medo de morrer, Catharina responde que já viu a morte e que não tem nem mãe para ampará-la.
Há, portanto, um contraste muito forte: Henriqueta tem dinheiro, mas está sozinha; Catharina é pobre, mas oferece solidariedade. E isso é uma das coisas mais bonitas do conto. Catharina não julga Henriqueta.
As duas mulheres dão à luz. Henriqueta tem um menino, e Catharina também. Mas Henriqueta morre logo depois do parto. E aqui o conto fica realmente cruel. Madame Levy e a enfermeira, cansadas depois dos dois partos, não sabem a quem pertence cada criança.
Madame Levy tenta escolher uma das crianças e dizer que aquela é a de Catharina. Porém, Catharina percebe que ela está simplesmente tentando adivinhar. Então surge uma sugestão ainda mais brutal:
— Tire a sorte… todos somos iguais!
Catharina repensou sua vida pobre e seu futuro, talvez até mais miserável, conseguindo enfim responder que queria as duas crianças.
E o conto termina justamente quando uma história poderia começar, por isso o título cabe perfeitamente na trama. Júlia poderia ter escrito um romance inteiro contando o que aconteceria com aquelas crianças. Mas ela para exatamente nesse momento.
É um conto que indico muito. Ele está disponível no livro Memórias de Martha, junto a outros dois contos.
Deixe um comentário para motivar a autora
Cancelar resposta?